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Advertências
aos jovens dramaturgos
Chico
de Assis
Primeira advertência – Sobre o aprendizado da técnica
A técnica para a dramaturgia é como todas as outras técnicas
da cultura humana. Resulta das tentativas e erros de todos os dramaturgos
desde o início do teatro até agora. Portanto convém
aplicar seu estudo nas técnicas. Isso não quer dizer que
você não possa mudá-las. Mas antes de inventar,
saiba de tudo o que foi feito antes para não incorrer no perigo
de inventar a roda. Ou seja, pensar que achou algo de novo que pode
já estar em uso há mais de mil anos.
Segunda advertência
– Sobre onde e como aprender
Você que gosta de livros, tem aí uma multidão deles,
sobre técnica de dramaturgia. No caso de procurar alguém
para ajudá-lo prefira os mestres e não os professores.
Digo isso porque a ligação entre mestre e discípulo
no caso das artes parece sempre dar mais resultado. Isso porque, o que
une o mestre ao discípulo é a arte do teatro. Os dois
amam a arte do teatro. Um tem muita experiência e precisa reciclar
e aprender o novo. Outro tem pouca experiência, mas tem a veia
nova. Esta simbiose parece ser a melhor forma do aprendizado.
Terceira advertência
– Lendo a dramaturgia dos tempos
Convém conhecer os grandes mestres da dramaturgia de todos os
tempos. Desde os gregos até os recentes americanos e brasileiros.
Quanto mais peças você ler, mais poderá ampliar
suas perspectivas.
Quarta advertência
– Sobre o que escrever
Este caminho é muito pessoal se você for muito pessoal.
Mas se você for daqueles tipos mais coletivos que andam em turma
e tem idéias sobre de como o mundo muda. A coisa então
fica menos pessoal e mais orgânica no processo. Parece que o teatro
serve mesmo é para divertir. Mas como dizia B. Brecht, que divertimento
pode ser maior do que o conhecimento do mundo onde vivemos e de como
podemos sacar caminhos éticos diante de encruzilhadas difíceis
que a época e o sistema nos apresentam. No fundo os dramaturgos
são intermediários entre o povo e o povo mesmo, entre
a pessoa e a pessoa mesma. Como uma lâmina inserida entre o povo
e o próprio povo o dramaturgo faz estranhar o que já está
costumeiro e faz acostumar ao novo imediato. Portanto para não
errar tente entender os problemas de sua gente, pode ser que você
encontre uma boa idéia para uma peça.
Quinta Advertência
– Cuidado com a moral vigente
A moral vigente reduz tudo ao bem e mal. Ouça o que disse o velho
Aristóteles sobre tragédia, moral e dramaturgia. “Se você
estiver cheio de moral, não vai conseguir escrever Tragédias”.
Prefira portanto tomar uma atitude ética. A ética tem
a vantagem de ser aplicada só depois que o fato acontece. A moral
está pronta esperando que os fatos venham de onde vierem.
Sexta advertência
– Sobre as críticas
O papel da critica é criticar, o papel do dramaturgo é
criar peças de teatro. Tente entender as posições
dos críticos, mas não deixe de ouvir seus pares, porque
eles serão sempre seus melhores críticos.
O ódio à crítica faz com que você escreva
pensando nisso e não é bom. Aceite tudo com a fleuma de
quem não está sozinho e tem seus pares para conversar
sobre a verdade.
Sétima advertência
– O segredo do sucesso
Uma vez, entrevistando o músico polonês já falecido
Bronislkaw Kapper,que é entre outras coisas autor da música
do filme Lily, uma das campeãs mundiais de sucesso em todos os
tempos, ele me disse: “Vou te dar o segredo do sucesso. Rezo todas as
noites assim: Deus, sou um bom cidadão, um bom pai, um bom filho,
um bom esposo, um bom profissional da música. Fazei com que eu
tenha sucesso”.
Ainda em tempo
Temos teatro de todo o tipo, desde as coisas mais ingênuas até
as mais elaboradas.Temos teatro digestivo, teatro passa tempo, teatro
inócuo, teatro igual ao teatro de sempre. Mas temos também
teatro responsável, teatro que serve ao mundo, teatro que participa
do caminho que todos queremos trilhar. O da justiça e da paz.
A sua escolha já está feita, já que você
é leitor de O SARRAFO, por isso eu só posso desejar sucesso
e que você encontre meios de colocar suas idéias nesta
arte velha e nova da dramaturgia. E saiba, meu bom jovem, que o dramaturgo
é apenas mais um no trabalho coletivo do teatro. E que a pessoa
mais importante do teatro não é o dramaturgo, nem o ator,
nem o diretor, nem o iluminador, nem o cenógrafo, nem o figurinista.
A pessoa mais importante do teatro é aquele que nos assiste e
para quem fazemos tudo. Nossa arte é assim, estudamos, teimamos,
limamos, suamos para o outro que vai nos assistir como testemunha de
nossa tentativa de ajudar o mundo a ser melhor. Quanto a conselhos,
não os ouça. Prefira as advertências. Leia Brecht,
ele nos adverte com sabedoria.
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