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Abril 2003 - número 2

Versões de Woizeck

Três novas versões de Woyzeck, de Georg Büchner (1813-1837) serão publicadas no Brasil nos próximos meses. Sobre esta peça do Romantismo Alemão, Anatol Rosenfeld escreveu: "Surge, talvez pela primeira vez, o herói negativo, que não apenas hesita (como Hamlet), mas que em vez de agir é coagido; o indivíduo desamparado, desenganado pela história ou pelo mundo." A tradução de Christine Roherig será publicada pela editora Cosac&Naify ainda no primeiro semestre de 2003. Foi ela que serviu de base para a encenação de Cibele Forjaz, com dramaturgia de Fernando Bonassi. A tradução de Tércio Redondo surgiu num trabalho de doutoramento em Literatura Alemã na USP. Sairá em livro pela editora Hedra, em edição bilingüe, com lançamento em maio no Memorial da América Latina. Já a peça Zé, de Fernando Marques é uma adaptação livre em versos, feita a partir da tradução de João Marschner. Foi lida em final de março pelo grupo Folias D'Arte, e será publicada em maio pela editora Perspectiva.

TRADUÇÃO DE CHRISTINE RÖHRIG

3. PRAÇA. BARRACAS. LUZES.

HOMEM VELHO com criança que dança. Canta:
Nesse mundo nada é seguro
Todos morrem um dia
É esse o nosso futuro!

WOYZECK: Heia! Upa! Pobre homem, velho homem! Pobre criança! Criancinha! Upa Maria, quer que te carregue? Pra poder comer, um homem tem... Mundo idiota! Mundo belo!

APRESENTADOR numa barraca: Meus senhores e minhas senhoras, aqui irão se apresentar o cavalo astronômico e o pequeno canalhinho, prediletos de todas as academias da Europa e membros de todas as sociedades intelectuais; prevêem tudo das pessoas: idade, quantos filhos, tipo de doenças... Com um tiro, fica numa perna só! Tudo educação, tem uma lógica animal, ou melhor, uma animalidade bem lógica! Não se trata dum indivíduo quadrúpede como muita gente é, descontando o honorável público. Entrem! Será a representação, o acontecimento dos acontecimentos e logo terá início. Meus senhores! Meus senhores! Vejam a criatura como Deus a fez: nada, coisa alguma. Agora vejam a arte: de pé sobre duas patas, veste casaco e calça e tem espada! Vejam os progressos da civilização. Tudo progride, um cavalo, um macaco, um canalhinho. O macaco já é soldado, ainda não é muita coisa, degrau mais baixo dos seres humanos! Comece a apresentação! O princípio do princípio.

WOYZECK: Quer ver?

MARIE: Por mim. Deve ser bonito.Uma gente esquisita... mulheres de calça...

Os originais de Woyzeck compostos de cinco folhas manuscritas, encontrados em forma de fragmentos, foram publicados pela primeira vez trinta e oito anos após a morte de Büchner, em 1875, com o título equivocado de “Wozzeck”.
O material encontrado pode não ter sido um material inacabado do qual Büchner ainda pretendia fazer um todo. Pode ser que ele tenha escrito intencionalmente diversas seqüências de uma mesma história que ao se desenrolarem se tornam independentes. Como disse o dramaturgo alemão Heiner Müller: “Uma dramaturgia que não se pretende objetiva, mas sim calcada na extrema subjetividade e no inacabado, que não pretende contar uma história de maneira linear mas incluir na narrativa o fator modificador do pensamento, em que o interesse subjetivo surge com ela e se transforma em parte integrante da história. Uma dramaturgia em que as contradições não são descritivas mas ativas, motoras e pulsantes”.

Christine Röhrig é tradutora, editora e escritora.

TRADUÇÃO DE TÉRCIO REDONDO

III – BARRACAS. LUZES. POVO

HOMEM VELHO (com uma criança dançando, canta):
No mundo tudo é passageiro.
Toda a gente tem de morrer;
Disso não se pode esquecer!

WOYZECK. Eta, gente! Pobre homem, o velhinho! Pobre criança, o menininho! Ei, Marie, e se eu te carregasse? A gente deve... para poder comer. Mundo louco! Mundo belo!

SALTIMBANCO (numa barraca). Meus senhores, minhas senhoras, aqui se vêem o cavalo astronômico1 e o pequenino canalho2, mui estimados de todos os potentados da Europa e membros de todas as academias de ciência. Tudo adivinham: a longevidade, quantos filhos, as doenças; atiram com a pistola, equilibram-se com uma só perna. Tudo educação! Eles têm uma razão animal, ou melhor, uma animalidade racional; não são imbecis como muitas pessoas, excetuando-se, é claro, o distinto público aqui presente. Entrai. Principia-se a representação, o começo do começo terá imediatamente o seu início. Meus senhores, meus senhores! Vede a criatura, como Deus a fez: sem nada, nada mesmo. Vede agora o que faz o engenho humano: a criatura anda ereta, usa calças e casaca, e porta uma espada! Vede o progresso da civilização. Tudo progride. - Ei, cavalo! Ei, macaco! Ei, canalho! O macaco já é um soldado - o que não quer dizer muita coisa – o degrau mais baixo do gênero humano! Comecemos a representação! Que se comece pelo começo.

WOYZECK. O que você acha?

MARIE. Vamos? Deve ser bem divertido. As franjas dele, e a mulher, ela usa calças!

1 O saltimbanco fala com forte sotaque francês, sem dominar inteiramente o idioma alemão. O termo "astronômico" é o que lhe ocorre para caracterizar o cavalo que adivinha o futuro, dando-lhe uma conotação mais próxima, talvez, da astrologia que da astronomia.
2 No original há um jogo de palavras. No lugar de Kanarienvögel (canário), aparece Kanaillenvögel (pássaro canalha).

Hoje, incorporado ao cânone literário, Woyzeck ainda provoca espanto e inquietação. Escrito em 1836, por um jovem de 23 anos, o texto seria ignorado por seus contemporâneos, para ser cultuado, no final do século, pelos naturalistas. Sua novidade residia na combinação de elementos inteiramente novos que revolucionavam a forma dramática.
Woyzeck compõe-se de uma sucessão de cenas curtas, alheias a uma clara seqüência temporal, com personagens que integram um mundo fragmentário, destituído de uma ordem superior que lhe confira sentido e organização. No lugar do duelo verbal, protagonizado por personagens de elevada estatura social, ele traz ao primeiro plano a figura do proletário, que fala o dialeto das classes populares. Além disso, a afeição que Büchner nutria pelo povo, sua familiaridade com seus usos e costumes, renderam a Woyzeck a incorporação de diversas canções e estórias, que comentam a ação, antecipando o teatro épico de Bertolt Brecht.
Nos anos que se seguiram à sua publicação, Woyzeck seria descoberto por Gerhart Hauptmann e Frank Wedekind, tornando-se desde então peça-chave para a literatura e o teatro modernos.

Tércio Redondo é médico, tradutor e doutorando em literatura alemã na USP.

ZÉ – ADAPTAÇÃO EM VERSO DE FERNANDO MARQUES

Cena 5 - A feira. Tendas. Luzes. Povo

(O Velho canta e a Criança dança ao som do acordeom. A música é o Tema do Fim)

Velho (cantando)
No mundo não há consistência
Todos vamos morrer
Sabemos muito bem
Vamos morrer
Sabemos bem

No fundo não há consciência
Logo vamos passar
Fazemos muito bem
Vamos passar
Fazemos bem


Ei, olhe! Pobre homem, pobre velho.
Pobre criança, lhe serve de espelho.
Preocupações e festas!

Maria
Se os loucos
têm razão, nós é que somos malucos!
Que belas figuras, nem acredito.
Ah, mundo engraçado, mundo bonito!

(Os dois seguem até onde está o Charlatão de Feira)
Charlatão (diante de uma tenda, com sua mulher vestindo calças e um macaco fantasiado)
Meus senhores, meus senhores!
Reparai na criatura
como Deus do céu a fez:
é coisa muito pequena,
é praticamente nada.
Meus senhores, meus senhores,
agora vede a cultura:
anda sobre os próprios pés,
usa calças e jaqueta
e traz até uma espada!
O macaco é militar;
ainda não é grande coisa,
mais baixo degrau da espécie.
Macaco, faça uma vênia!
Isso, agora mande um beijo.
(O macaco toca trombeta)
Vede, ele sabe tocar!
Sim, ele aos poucos melhora.
Aqui, nesta mesma praça,
vereis cavalos do Quênia
e passarinhos do Tejo,
favoritos das cabeças
coroadas da Europa.
Revelam tudo aos mortais:
idade, filhos, doenças.
Vinde, que vai começar!


Você gosta da conversa?

Maria
Por mim... Usam belas roupas.
As dele são federais
e as calças dela, imensas!
Parece espetacular.

(Os dois entram na tenda)

O texto de base para esta adaptação foi a tradução da peça de Georg Büchner, feita por João Marschner e publicada pela Ediouro (Woyzeck e Leonce e Lena. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d).
Para a revisão do texto, vali-me de Georg Büchner e a Modernidade, livro de Irene Aron (São Paulo: Annablume, 1993). Segui a ordem adotada por Marschner, que difere bastante da apresentada por Irene Aron com base nas obras completas de Büchner, editadas por Werner R. Lehmann (Hamburgo: Christian Wegner Verlag, vol. I, 1967, vol. II, 1971). Existem várias edições da peça (a primeira delas é de 1879), o que também pode explicar as diferentes versões. Depois de terminada a primeira redação do trabalho, tive acesso a uma segunda tradução integral de Woyzeck, feita por Mário da Silva, em cópia xerográfica cedida pelo ensaísta e professor Eudinyr Fraga. De novo, há diferenças na ordem das cenas e em detalhes do texto com relação ao trabalho de Marschner. A peça foi rebatizada como Lua de Sangue, tendo sido encenada por Ziembinski em 1948, no Rio de Janeiro (quando se dá a estréia do texto no Brasil, com Maria Della Costa no papel de Maria e o próprio diretor no papel de Woyzeck). Mais recentemente, pude ler a tradução de Christine Röhrig, inédita em livro. Para a última redação, consultei as três traduções integrais do texto. Reitero, afinal, não se tratar aqui de tradução em verso, mas de adaptação em verso, feita com alguma liberdade a partir da peça publicada pela Ediouro.

Fernando Marques é jornalista e pesquisador de teatro.