KIL ABREU

PENSAR O TEATRO NO
TEMPO DO ESPETÁCULO
Há dois eixos - não únicos, mas fundamentais - a partir dos quais podemos pensar a reverberação do pensamento no teatro brasileiro contemporâneo: o da
criação e o da apreciação crítica, ambos carregando os impasses próprios e os
vícios que evidentemente não se sedimentaram de ontem para hoje, mas vêm se
cristalizando há tempos.
O lugar do teatro hegemônico, como é óbvio, continua a ser ocupado pela
fantasia voyeurista da vida privada, nas formas em que se tenta fazer cumprir a
arquitetura do drama burguês e as suas variações, que raras vezes conseguem
simular de fato as contradições de um tecido social que não cola facilmente às
superfícies pretendidas do objeto representado. Este teatro, ainda que bem vivo
no capítulo dos dividendos financeiros, está artisticamente morto, e pouco
interessa, a não ser como um testemunho, entre outros, da miséria intelectual
que vivemos.
A cena que interessa, que tem vitalidade e está descrevendo, deliberadamen-
te ou não, as formas complexas da sociabilidade no Brasil atual, é coberta por
um arco amplo e desarmônico, que vai das intervenções renovadas da tradição
do teatro político às experiências que encontram formas novas nos temas do
cotidiano e da subjetividade.
Independentemente do grau de aderência a um discurso mais ou menos
engajado, o fato é que em qualquer dessas coordenadas estéticas o fazer
teatral está assimilado como forma-mercadoria, quase sempre tentando ganhar espaço no amplo espectro de soluções espetaculares a serem rendidas
pelo capital. E é nesta perspectiva da produção artística que tanto o ato
criativo quanto a crítica tendem a se distanciar da vida ordinária e a considerar irrelevantes os informes a respeito das condições históricas da obra de
arte e do discurso analítico que a aprecia.
A lógica reificante que articula o sistema dispensa a verticalidade
do pensamento. No plano artístico, o substitui pelo mito da técnica e dos formalismos de toda ordem, em procedimentos estetizantes que celebram a gratuidade
do fazer e o jogo abstrato das formas. No plano crítico, reforça a idéia de que
os produtos da cultura, autonomizados, têm um fim em si mesmos, e sua
interpretação pouco depende "do processo vital e real da sociedade", do qual
se mantém apartada.
Não à toa a crítica está confinada em espaços institucionais que estão dispensando o discurso propriamente crítico, em operações que cada vez mais
reduzem suas categorias, como o juízo de valor, a instrumentos que renunciam totalmente à argumentação, ao contraste, ao debate de idéias, e sobretudo
à visada ampla da produção. Então a totalização crítica dos fragmentos diversos que compõem a vida teatral e o cotejamento com as suas motivações
estruturantes são uma urgência, assim como a busca por canais alternativos
de interlocução.
No ambiente artístico muitos desses canais estão sendo inventados ou retomados. Por exemplo, na discussão direta dos grupos de teatro com suas platéias, na organização de seminários e de atividades extra-artísticas, na maneira
organizada como as entidades de classe vêm forçando os governos a assumir
políticas públicas mais avançadas, na circulação de informativos, na abertura
e compartilhamento dos processos de criação, nos espaços abertos em sítios
virtuais, etc.
Se a cultura só é verdadeira quando implicitamente crítica, como quer Adorno, não é tarefa fácil revelar o teor de verdade que o teatro brasileiro pode
oferecer aos brasileiros de hoje. Não é fácil, mas é a tarefa.