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Janeiro 2007 - número 11

MOVIMENTO DE TEATRO DE GRUPO EM SÃO PAULO Mostras do Engenho Teatral

FABIANE ESPÍRITO SANTO

Atualmente a cidade de São Paulo vivencia um expressivo movimento de teatro de grupo, que vem conquistando espaço a partir da mobilização da classe teatral diante da urgência em abrir caminhos dentro de uma sociedade qualificada como democrática, mas que já não prevê vínculos fora das relações mercantis.

A realidade perdeu o brilho, petrificou-se nestes tempos em que esvaziaram a ideologia em nome da sobrevivência a qualquer custo. Cada vez mais estamos rumando para o espetáculo sem a preo cupação do discurso.  

Percorrendo as platéias dos palcos, nos diversos locais onde a poética atividade cênica se instala incomodamente, pode- se perceber nos olhos, nos gestos, nas falas e nos silêncios de quem assiste e de quem é assistido que os elementos teatrais, paradoxalmente, retratam a realidade das humanas relações tão postergadas nessas eras de avanços tecnológicos. Como se fosse necessária a ficção tomar o lugar do real para enxergarmos o quão huma- nos somos. Já o esquecemos.

Foi com o desejo de debater o papel do teatro no momento histórico atual e inverter os mecanismos de reificação da arte e da cultura, que o Grupo Engenho Teatral estabelecido em sua sede móvel, localizada no bairro do Tatuapé, promo- veu duas mostras paralelas: Teatro em Movimento - Encontro de Grupos e Enge- nho Mostra um Pouco do que Gosta II, com a proposta de reunir doze grupos (As Graças, Cia. Fraternal de Artes e Malas-Artes, Sobrevento, Cia. do Feijão, Cia. Estável, Cia. São Jorge de Varieda- des, Engenho Teatral, Teatro União e Olho Vivo, Folias D'Arte, Dolores Boca Aberta e Mecatrônica de Artes, Núcleo Bartolomeu de Depoimentos e XIX de Teatro) em doze espetáculos gratuitos seguidos de debates. O objetivo era ex- por a produção do movimento de teatro de grupo, discutir a linguagem estética e os rumos tomados pelo teatro paulis- tano e sua relação com a sociedade.

A maciça participação dos grupos to- mou amplitude de modo a sugerir a ne- cessidade da retomada de esferas de de- bates acerca das relações entre arte e so- ciedade na possibilidade de criar setores organizados na sociedade civil, dignos de mobilizar ações transformadoras como fora o movimento Arte Contra a Barbárie de 1998, que ocasionou a aprovação do Pro- grama Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo (2002).

Nos debates que se estenderam, figu- rou o anseio da classe teatral por organi- zar-se e estabelecer os próprios meios de articulação para consolidar a construção do imaginário não-hegemônico: o que fa- zer para inverter as relações mercantis atri- buídas à cultura? O que, afinal, quer dizer "grupo"? Qual o vínculo do teatro com o seu público? São estas as interrogações que permeiam a atuação do teatro paulis- tano e suscitam que seu processo de de- senvolvimento está por avançar.