
MOVIMENTO DE TEATRO
DE GRUPO EM SÃO PAULO
Mostras do Engenho Teatral
FABIANE ESPÍRITO SANTO
Atualmente a cidade de São Paulo vivencia um expressivo movimento
de teatro de grupo, que vem conquistando espaço a partir da mobilização da classe
teatral diante da urgência em abrir caminhos
dentro de uma sociedade qualificada como
democrática, mas que já não prevê vínculos fora das relações mercantis.
A realidade perdeu o brilho, petrificou-se nestes tempos em que esvaziaram
a ideologia em nome da sobrevivência a
qualquer custo. Cada vez mais estamos
rumando para o espetáculo sem a preo cupação do discurso.
Percorrendo as platéias dos palcos, nos
diversos locais onde a poética atividade
cênica se instala incomodamente, pode-
se perceber nos olhos, nos gestos, nas falas e nos silêncios de quem assiste e de
quem é assistido que os elementos teatrais, paradoxalmente, retratam a realidade das humanas relações tão postergadas nessas eras de avanços tecnológicos. Como
se fosse necessária a ficção tomar o lugar
do real para enxergarmos o quão huma-
nos somos. Já o esquecemos.
Foi com o desejo de debater o papel
do teatro no momento histórico atual e
inverter os mecanismos de reificação da
arte e da cultura, que o Grupo Engenho
Teatral estabelecido em sua sede móvel,
localizada no bairro do Tatuapé, promo-
veu duas mostras paralelas: Teatro em
Movimento - Encontro de Grupos e Enge-
nho Mostra um Pouco do que Gosta II,
com a proposta de reunir doze grupos
(As Graças, Cia. Fraternal de Artes e
Malas-Artes, Sobrevento, Cia. do Feijão,
Cia. Estável, Cia. São Jorge de Varieda-
des, Engenho Teatral, Teatro União e
Olho Vivo, Folias D'Arte, Dolores Boca
Aberta e Mecatrônica de Artes, Núcleo
Bartolomeu de Depoimentos e XIX de
Teatro) em doze espetáculos gratuitos
seguidos de debates. O objetivo era ex-
por a produção do movimento de teatro
de grupo, discutir a linguagem estética
e os rumos tomados pelo teatro paulis-
tano e sua relação com a sociedade.
A maciça participação dos grupos to-
mou amplitude de modo a sugerir a ne-
cessidade da retomada de esferas de de-
bates acerca das relações entre arte e so-
ciedade na possibilidade de criar setores
organizados na sociedade civil, dignos de
mobilizar ações transformadoras como fora
o movimento Arte Contra a Barbárie de
1998, que ocasionou a aprovação do Pro-
grama Municipal de Fomento ao Teatro para
a Cidade de São Paulo (2002).
Nos debates que se estenderam, figu-
rou o anseio da classe teatral por organi-
zar-se e estabelecer os próprios meios de
articulação para consolidar a construção
do imaginário não-hegemônico: o que fa-
zer para inverter as relações mercantis atri-
buídas à cultura? O que, afinal, quer dizer
"grupo"? Qual o vínculo do teatro com o
seu público? São estas as interrogações
que permeiam a atuação do teatro paulis-
tano e suscitam que seu processo de de-
senvolvimento está por avançar.