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Janeiro 2007 - número 11

 

 

Vigor Estético e Timidez Política

DANIEL PUGLIA

Passado e presente do eterno país sem futuro. As mostras do Engenho ofereceram algumas visões do paradisíaco empreendimento capitalista que por conveniência e conivência costumamos chamar de Brasil. Mas também é necessário dizer que o conjunto retratado pelas peças não coloca em relevo algo apequenado e chinfrin que possamos nomear apenas como nosso país, que aliás de nosso não tem quase nada - ainda mais se atentarmos para o seguinte: dependendo da ponta em que nos situamos na chibata internacional do trabalho, rápido podemos reconhecer que as costas lanhadas não respeitam divisões nacionais de mercado, pois o sistema é mundialmente voraz. As canalhices daqui ajudam a entender as trapaças de acolá, uma vez que a pilantragem da busca pelo lucro obedece a uma lógica ampla, geral e irrestrita. Como já demonstraram alguns ranzinzas do século retrasado, os escravos das colônias eram os proletários dos proletários das metrópoles, a espoliação ocorren- do em vertiginosa cadeia para a valori- zação do capital. A terminologia pode parecer meio antigona, mas quem sabe o mofo do vocabulário não ajude a despertar nosso olfato? Ao que parece a lei de movimento dos odores do sistema produtor de mercadorias continua firme e forte, é certo que com diferenças, transformações e aprofundamentos, isso tudo melhor expresso na conceituação da crítica à economia política, vista em cambalhota brasileira: a merda é a mesma, só mudam as moscas - como diria um dos grupos teatrais das mostras em questão. Em suma, desgraça pouca era e ainda é bobagem: somos supérfluos, desempregados e explorados em exata correlação com africanos supérfluos, europeus desempregados e asiáticos explorados. Para quem duvidar, basta prestar atenção ao modo malemolente como desfilamos nossa ginga ornitorrinca, essa graça com que conseguimos sumariar regionalmente os antagonismos mundiais de classe, tudo conforme um circo de horrores, divertido para a leal minoria, sórdido para uma natimorta maioria. Assim, o caráter bisonho das radiografias de nossa amarrotada babilônia e os quadros em exposição dessa pátria desalmada, tais radiografias e tais quadros revelam as moléstias da vida em pedaços na guerra permanente da concorrência e do individualismo. Nessa competição nos tornamos todos meretrizes um pouco safadas, mas ingenuamente frígidas, cheias dos automatismos e tiques dos mortos-vivos, numa coreografia de cabaré mal ajambrado em que fazemos figura de caloteiros uns dos outros. Toda essa matéria está nas montagens, sem tirar nem pôr, ou seja, o diagnóstico feito pelos grupos é contundente, diz respeito a todos nós - e não há esconderijo, não há redenção ou transcendência estética que, fechada no casulo de si mesma, resista a tal ordem de coisas.

"Artistas e intelectuais gostam de imaginar a si mesmos como habitantes de algum reino especial" 

AO PERDEDOR AS CASCAS  

Com sensibilidade cáustica, inebriante e ao mesmo tempo de corte afiado, as peças formam um caleidoscópio, em que umas necessitam das outras, completam e enriquecem as demais, tudo isso para dar forma a uma certa memória dos desmemoriados, revelando o que não nos foi ensinado ou aquilo que fomos forçados a esquecer. Assim, em Pedro o Cru, os desmandos do reizinho apaixonado não concernem somente a uma matriz ibérica, mas sobretudo ao arbítrio e à violência que caracterizaria a fase da acumulação primitiva em solo europeu, numa prévia do que viria a seguir. Os súditos devem comer o pão que seu monarca amassou, ou seja, entre as constantes idas e vindas das veleidades dos que mandam, os miseráveis usufruem a penúria e a míngua, naquele deusará de quem foi escravo, é servo e será trabalhador. Em seguida, na passagem de bastão para A Guerra dos Caloteiros e Nonada, temos as conseqüências da fase posterior da acumulação: a ironia ilustrativa de quanto o Brasil sempre esteve na vanguarda do esbulho e da especulação, mimos inerentes ao regime de disputa entre capital e trabalho e, para além disso, um desmentido para todos os modernosos que, nos princípios do século vinte e um, advogam a necessida- de de um choque de gestão, um choque de capitalismo em terras brasileiras - pura balela que tenta encobrir há quanto tempo estamos sendo eletrocutados. Portanto, não deve causar surpresa que essas guerras de trambiqueiros desemboquem num nonada: o Estado, que mal e porcamente se formou, passará a ser pilhado melhor e cada vez mais pela gente fina organizada em caterva, que rege e orquestra a subserviência das assim chamadas camadas médias, sempre prontas a executar o serviço sujo, o cala-boca que aborta a nação. Desse modo, elites e lacaios zelam pela administração da esfola. E nisto que por convenção vai sendo chamado de país, quaisquer demandas populares devem ser repetidamente silenciadas, como bem demonstra João Cândido do Brasil A Revolta da Chibata, pois desde os tempos do açúcar sem nenhum afeto, passando pela modernização excludente, o território vai sendo fatiado de acordo com grupos de interesse, e a urbanização e a industrialização capengas colocam em superfície conflitos latentes, divergências inconciliáveis. É assim que em Hygiene a destruição dos cortiços ajuda a compreender a face espúria do planejamento urbano tendo como tropa de choque a especulação imobiliária, o que mais uma vez atualiza o caleidoscópio das encenações: a ocupação do solo e a propriedade privada dão régua e compasso para compreender a arquitetura do país que se constitui como grande cortiço internacionaliza- do no concerto das nações. Acresce, enfim, que essa pátria que pariu retira de seus filhos qualquer destino gentil, pois os ditames da economia frustram todo um exército de zé-ninguéns, perdidos em ilusões nacionais, enquanto a política mundializada impõe as vontades de seu verdadeiro tutor: essa invenção marota denominada mercado, mais um nome fantasia do capital. Para especificar: seja no jogo - infantil? - de Os Meninos e as Pedras de nossos irmãos no Oriente Médio, seja na saga em ritmo pega-pra-capar de Frátria Amada Brasil, chegamos a uma barreira, histórica e premente, que exige o rompimento das celas nacionais, culturais ou étnicas, quando toda opressão poderá ceder espaço para a verdadeira democracia, em frátrias palavras: o povo organizado, governo sem Estado.

O DERROTISMO É PÉSSIMO PARA O SUCESSO  

Muito embora em sua maioria os gru- pos, salvo engano, não morram de amo- res por um caminho de luta política efe- tiva, a própria constelação das peças exige um próximo passo, uma saída do cala- bouço da despolitização. Ou seja, fei- to o mapeamento da carnificina co- tidiana, então o que fazer? O frescor e os limites da emprei- tada levada a efeito por espe- táculos como Clarices e Memó- rias das Coisas fazem pensar, pois a investigação aparente- mente singela revela nexos e correlações profundas, a saber, de indivíduos tentando reco- nhecer aquilo que vivenciaram, pessoas correndo atrás de pis- tas num mundo de partes frag- mentadas, partes sem os traços funda- mentais do como e por quem foram pro- duzidas. Vale destacar que tal exercício investigativo estabelece um fio condu- tor, mais um dentre tantos, costurando o poderoso panorama que as peças ergue- ram - e este panorama, por sua vez, re- torna como um espelho para os próprios artistas. Assim, o sarcasmo e apuro téc- nico do Cabaré dos Quase-Vivos colocam em moldura a vida incerta de quem tem apenas sua força de trabalho para ven- der, dominado por fios invisíveis que lhe determinam alguma vida e muitas mor- tes. Por outro lado, as maquinações dos manipuladores fazem a mímica de uma existência que já se esvaiu. Em outra cha- ve, mas com virtuosismo semelhante, O Princípio do Espanto recoloca a situação dos criadores que não reconhecem sua própria criação, ou ainda, da criação que contrasta, realça e destaca a situação alie- nada de seus criadores. De longa data já sabemos que, grosso modo e salvo as ra- ras e honrosas exceções, artistas e inte- lectuais gostam de imaginar a si mesmos como habitantes de algum reino especial, e fazem manha e ficam trombudos quan- do percebem que não podem prescindir do mercado e ao mesmo tempo não po- dem viver dentro dele. O passo mais sen- sato seria questionar as regras do jogo, romper com a divisão do trabalho, lutar pela supressão das distinções entre pro- dutores e consumidores. Ocorre que, como são talentosos, sensíveis, sagazes e su- per descolados, nossos artistas e intelec- tuais nutrem apenas uma energia cap- ciosa: descambam para a rebeldia estilo- sa, mas do capanga disposto a tudo, sem- pre em prol do lobby de si próprio e na contracorrente do interesse coletivo. Um bom antídoto seria prestar atenção ao Auto do Circo, e meditar sobre o fio da navalha e a vida na berlinda numa socie- dade que insiste na estrita divisão do tra- balho: somos ou não somos todos palha- ços um tantinho quanto supérfluos? Se a fábula circense for popularesca demais, a alergia talvez possa ser evitada e a li- ção poderá ser aprendida no mergulho didático-musical do escracho sofisticado no Cabaré Paulista - Do Manifesto Contra o Trabalho. Em suma, na composição e recomposição das peças, temos material de sobra para evitar a asneira do malaba- rista que domina a arte que pratica sem atentar para o solo onde pisa.  

SOMBRAS DANÇAM NA BABILÔNIA EM PEDAÇOS  

É certo que os inimigos continuam vencendo, e um de seus esforços mais contumazes é o de apagar todos os ras- tros de quaisquer movimentos de resis- tência. Por isso, numa improvável tría- de formada por Babilônia, Em Pedaços e Sombras Dançam Neste Incêndio, respei- tadas as inúmeras diferenças de concep- ção cênica e dramatúrgica, temos ainda um formidável golpe em tudo o que sig- nifique desistência, esmorecimento e inação diante da barbárie que nos con- some a todos. As figuras das duas pri- meiras, de modo diverso mas simbióti- co, reproduzem uma certa circulação fre- nética de pessoas e mercadorias que novamente dão nova viravolta no calei- doscópio - e que não nos enganemos: são matérias configuradas em forma ela- boradíssima, um verdadeiro aviso de in- cêndio. Dada essa armação, a proposi- ção da terceira peça não poderia ser mais pertinente: o caminho é a luta organi- zada, mas já com os antídotos contra o consumo fácil e leviano - de pessoas, mercadorias e ideologias. Ao fim e ao cabo, na recém-descoberta correspon- dência entre Brecht e Freud, talvez pos- samos ler algo acerca destes impasses da anomia: "Senhor Freud, numa carta an- terior o senhor me disse que talvez a minha luta seja vã mas necessária, im- possível mas inescapável. Não concordo e não sei se chego a compreender o que o senhor quer dizer, principalmente por- que conheço bem seu viés conservador. Entretanto, algumas vezes o senhor pa- rece estar certo. Tenho trabalhado numa peça em que os atores têm de fazer um discreto discurso pelo engajamento po- lítico. Quando falam todos juntos con- seguem seguir o texto, mas quando de- vem falar em separado a única frase que sai é a seguinte: 'Pobre é foda: sempre diz que não tem nada, mas numa en- chente diz que perdeu tudo'. Nem acho essa frase totalmente desprovida de in- teresse, mas o fato é que em nenhum momento eu a escrevi e individualmen- te ela nunca foi sugerida por ninguém. Eles desconfiam de algum truque meu, mas fui eu que passei a desconfiar ain- da mais deles". A resposta do criador da psicanálise não poderia ser mais dire- ta: "Meu caro senhor Brecht, infeliz- mente também nesse caso não posso auxiliá-lo. Mas, ao que tudo indica, al- guma intuição íntima já revelou aos seus colaboradores que essa questão do engajamento, mesmo num texto ficcio- nal, é um falso problema. Ao menos esta é minha opinião. Quanto à frase inde- sejada, julgo que ela deve surgir como um sinalizador da insegurança que têm em relação a si mesmos e à posição que ocupam na hierarquia social. Contudo essa hipótese também me parece insa- tisfatória. De todo modo, dentro de suas concepções - que aliás não me agra- dam - e dentro de seus pressupostos, o mínimo que posso dizer é: continue lutando por um mundo em que o tea- tro seja necessário, mas não como pri- vilégio de uma categoria. E se aqueles que se julgam artistas demonstrarem problemas com isso, oscilarem entre a defesa da própria excepcionalidade e o abismo da baixa auto-estima, tiverem surtos, chiliques, etc., deixe estar: aqueles que não gostam de si mesmos geralmente têm razão. Mas para não encerrar com nota soturna, afinal o der- rotismo é péssimo para o sucesso, vale lembrar: alguém já disse que vocês, unidos, podem perder suas correntes e ganhar o mundo. Em princípio, não gosto da idéia, mas quem sabe?"

"Feito o mapeamento da carnificina cotidiana, o que fazer?"

"Pobre é foda: sempre diz que não tem nada, mas numa enchente diz que perdeu tudo"