Vigor Estético e Timidez Política
DANIEL PUGLIA
Passado e presente do eterno país sem futuro. As mostras do Engenho ofereceram algumas visões do paradisíaco
empreendimento capitalista que por
conveniência e conivência costumamos
chamar de Brasil. Mas também é necessário dizer que o conjunto retratado pelas peças não coloca em relevo algo
apequenado e chinfrin que possamos nomear apenas como nosso país, que aliás de nosso não tem quase nada - ainda mais se atentarmos para o seguinte:
dependendo da ponta em que nos situamos na chibata internacional do trabalho, rápido podemos reconhecer que
as costas lanhadas não respeitam divisões nacionais de mercado, pois o
sistema é mundialmente voraz. As canalhices daqui ajudam a entender as trapaças de acolá, uma vez que a pilantragem da busca pelo lucro obedece a uma
lógica ampla, geral e irrestrita. Como
já demonstraram alguns ranzinzas do
século retrasado, os escravos das colônias eram os proletários dos proletários
das metrópoles, a espoliação ocorren-
do em vertiginosa cadeia para a valori-
zação do capital. A terminologia pode
parecer meio antigona, mas quem sabe
o mofo do vocabulário não ajude a despertar nosso olfato? Ao que parece a
lei de movimento dos odores do sistema produtor de mercadorias continua
firme e forte, é certo que com diferenças, transformações e aprofundamentos,
isso tudo melhor expresso na conceituação da crítica à economia política, vista em cambalhota brasileira: a merda é
a mesma, só mudam as moscas - como
diria um dos grupos teatrais das mostras em questão. Em suma, desgraça
pouca era e ainda é bobagem: somos
supérfluos, desempregados e explorados em exata correlação com africanos
supérfluos, europeus desempregados e
asiáticos explorados. Para quem duvidar, basta prestar atenção ao modo malemolente como desfilamos nossa
ginga ornitorrinca, essa graça com que
conseguimos sumariar regionalmente os
antagonismos mundiais de classe, tudo
conforme um circo de horrores, divertido para a leal minoria, sórdido para
uma natimorta maioria. Assim, o caráter bisonho das radiografias de nossa
amarrotada babilônia e os quadros em
exposição dessa pátria desalmada, tais
radiografias e tais quadros revelam as
moléstias da vida em pedaços na guerra permanente da concorrência e do individualismo. Nessa competição nos
tornamos todos meretrizes um pouco safadas, mas ingenuamente frígidas, cheias dos automatismos e tiques dos mortos-vivos, numa coreografia de cabaré
mal ajambrado em que fazemos figura
de caloteiros uns dos outros. Toda essa
matéria está nas montagens, sem tirar
nem pôr, ou seja, o diagnóstico feito
pelos grupos é contundente, diz respeito a todos nós - e não há esconderijo,
não há redenção ou transcendência estética que, fechada no casulo de si mesma, resista a tal ordem de coisas.
"Artistas e
intelectuais
gostam de
imaginar a si
mesmos como
habitantes de
algum reino
especial"

AO PERDEDOR AS CASCAS
Com sensibilidade cáustica, inebriante e ao mesmo tempo de corte afiado,
as peças formam um caleidoscópio, em
que umas necessitam das outras, completam e enriquecem as demais, tudo
isso para dar forma a uma certa memória dos desmemoriados, revelando o que
não nos foi ensinado ou aquilo que fomos forçados a esquecer. Assim, em
Pedro o Cru, os desmandos do reizinho
apaixonado não concernem somente a
uma matriz ibérica, mas sobretudo ao
arbítrio e à violência que caracterizaria a fase da acumulação primitiva em
solo europeu, numa prévia do que viria
a seguir. Os súditos devem comer o pão
que seu monarca amassou, ou seja, entre as constantes idas e vindas das veleidades dos que mandam, os miseráveis usufruem a penúria e a míngua,
naquele deusará de quem foi escravo, é servo e será trabalhador. Em
seguida, na passagem de bastão para A
Guerra dos Caloteiros e Nonada, temos
as conseqüências da fase posterior da
acumulação: a ironia ilustrativa de
quanto o Brasil sempre esteve na vanguarda do esbulho e da especulação,
mimos inerentes ao regime de disputa
entre capital e trabalho e, para além
disso, um desmentido para todos os
modernosos que, nos princípios do século vinte e um, advogam a necessida-
de de um choque de gestão, um choque
de capitalismo em terras brasileiras -
pura balela que tenta encobrir há quanto tempo estamos sendo eletrocutados.
Portanto, não deve causar surpresa que
essas guerras de trambiqueiros desemboquem num nonada: o Estado, que mal
e porcamente se formou, passará a ser
pilhado melhor e cada vez mais pela
gente fina organizada em caterva, que
rege e orquestra a subserviência das
assim chamadas camadas médias, sempre prontas a executar o serviço sujo,
o cala-boca que aborta a nação. Desse
modo, elites e lacaios zelam pela administração da esfola. E nisto que por convenção vai sendo chamado de país,
quaisquer demandas populares devem
ser repetidamente silenciadas, como
bem demonstra João Cândido do Brasil
A Revolta da Chibata, pois desde os tempos do açúcar sem nenhum afeto, passando pela modernização excludente, o
território vai sendo fatiado de acordo
com grupos de interesse, e a urbanização e a industrialização capengas colocam em superfície conflitos latentes,
divergências inconciliáveis. É assim que
em Hygiene a destruição dos cortiços
ajuda a compreender a face espúria do
planejamento urbano tendo como tropa de choque a especulação imobiliária, o que mais uma vez atualiza
o caleidoscópio das encenações: a ocupação do solo e a propriedade privada dão
régua e compasso para compreender a
arquitetura do país que se constitui
como grande cortiço internacionaliza-
do no concerto das nações. Acresce,
enfim, que essa pátria que pariu retira
de seus filhos qualquer destino gentil,
pois os ditames da economia frustram
todo um exército de zé-ninguéns, perdidos em ilusões nacionais, enquanto a
política mundializada impõe as vontades de seu verdadeiro tutor: essa invenção marota denominada mercado,
mais um nome fantasia do capital. Para
especificar: seja no jogo - infantil? -
de Os Meninos e as Pedras de nossos
irmãos no Oriente Médio, seja na saga
em ritmo pega-pra-capar de Frátria
Amada Brasil, chegamos a uma barreira, histórica e premente, que exige o
rompimento das celas nacionais, culturais ou étnicas, quando toda opressão
poderá ceder espaço para a verdadeira
democracia, em frátrias palavras: o povo
organizado, governo sem Estado.

O DERROTISMO É PÉSSIMO PARA O
SUCESSO
Muito embora em sua maioria os gru-
pos, salvo engano, não morram de amo-
res por um caminho de luta política efe-
tiva, a própria constelação das peças exige
um próximo passo, uma saída do cala-
bouço da despolitização. Ou seja, fei-
to o mapeamento da carnificina co-
tidiana, então o que fazer? O
frescor e os limites da emprei-
tada levada a efeito por espe-
táculos como Clarices e Memó-
rias das Coisas fazem pensar,
pois a investigação aparente-
mente singela revela nexos e
correlações profundas, a saber,
de indivíduos tentando reco-
nhecer aquilo que vivenciaram,
pessoas correndo atrás de pis-
tas num mundo de partes frag-
mentadas, partes sem os traços funda-
mentais do como e por quem foram pro-
duzidas. Vale destacar que tal exercício
investigativo estabelece um fio condu-
tor, mais um dentre tantos, costurando o
poderoso panorama que as peças ergue-
ram - e este panorama, por sua vez, re-
torna como um espelho para os próprios
artistas. Assim, o sarcasmo e apuro téc-
nico do Cabaré dos Quase-Vivos colocam
em moldura a vida incerta de quem tem
apenas sua força de trabalho para ven-
der, dominado por fios invisíveis que lhe
determinam alguma vida e muitas mor-
tes. Por outro lado, as maquinações dos
manipuladores fazem a mímica de uma
existência que já se esvaiu. Em outra cha-
ve, mas com virtuosismo semelhante, O
Princípio do Espanto recoloca a situação
dos criadores que não reconhecem sua
própria criação, ou ainda, da criação que
contrasta, realça e destaca a situação alie-
nada de seus criadores. De longa data já
sabemos que, grosso modo e salvo as ra-
ras e honrosas exceções, artistas e inte-
lectuais gostam de imaginar a si mesmos
como habitantes de algum reino especial,
e fazem manha e ficam trombudos quan-
do percebem que não podem prescindir
do mercado e ao mesmo tempo não po-
dem viver dentro dele. O passo mais sen-
sato seria questionar as regras do jogo,
romper com a divisão do trabalho, lutar
pela supressão das distinções entre pro-
dutores e consumidores. Ocorre que, como
são talentosos, sensíveis, sagazes e su-
per descolados, nossos artistas e intelec-
tuais nutrem apenas uma energia cap-
ciosa: descambam para a rebeldia estilo-
sa, mas do capanga disposto a tudo, sem-
pre em prol do lobby de si próprio e na
contracorrente do interesse coletivo. Um
bom antídoto seria prestar atenção ao
Auto do Circo, e meditar sobre o fio da
navalha e a vida na berlinda numa socie-
dade que insiste na estrita divisão do tra-
balho: somos ou não somos todos palha-
ços um tantinho quanto supérfluos? Se a
fábula circense for popularesca demais,
a alergia talvez possa ser evitada e a li-
ção poderá ser aprendida no mergulho
didático-musical do escracho sofisticado
no Cabaré Paulista - Do Manifesto Contra
o Trabalho. Em suma, na composição e
recomposição das peças, temos material
de sobra para evitar a asneira do malaba-
rista que domina a arte que pratica sem
atentar para o solo onde pisa.
SOMBRAS DANÇAM NA BABILÔNIA EM
PEDAÇOS
É certo que os inimigos continuam
vencendo, e um de seus esforços mais
contumazes é o de apagar todos os ras-
tros de quaisquer movimentos de resis-
tência. Por isso, numa improvável tría-
de formada por Babilônia, Em Pedaços e
Sombras Dançam Neste Incêndio, respei-
tadas as inúmeras diferenças de concep-
ção cênica e dramatúrgica, temos ainda
um formidável golpe em tudo o que sig-
nifique desistência, esmorecimento e
inação diante da barbárie que nos con-
some a todos. As figuras das duas pri-
meiras, de modo diverso mas simbióti-
co, reproduzem uma certa circulação fre-
nética de pessoas e mercadorias que
novamente dão nova viravolta no calei-
doscópio - e que não nos enganemos:
são matérias configuradas em forma ela-
boradíssima, um verdadeiro aviso de in-
cêndio. Dada essa armação, a proposi-
ção da terceira peça não poderia ser mais
pertinente: o caminho é a luta organi-
zada, mas já com os antídotos contra o
consumo fácil e leviano - de pessoas,
mercadorias e ideologias. Ao fim e ao
cabo, na recém-descoberta correspon-
dência entre Brecht e Freud, talvez pos-
samos ler algo acerca destes impasses da
anomia: "Senhor Freud, numa carta an-
terior o senhor me disse que talvez a
minha luta seja vã mas necessária, im-
possível mas inescapável. Não concordo
e não sei se chego a compreender o que
o senhor quer dizer, principalmente por-
que conheço bem seu viés conservador.
Entretanto, algumas vezes o senhor pa-
rece estar certo. Tenho trabalhado numa
peça em que os atores têm de fazer um
discreto discurso pelo engajamento po-
lítico. Quando falam todos juntos con-
seguem seguir o texto, mas quando de-
vem falar em separado a única frase que
sai é a seguinte: 'Pobre é foda: sempre
diz que não tem nada, mas numa en-
chente diz que perdeu tudo'. Nem acho
essa frase totalmente desprovida de in-
teresse, mas o fato é que em nenhum
momento eu a escrevi e individualmen-
te ela nunca foi sugerida por ninguém.
Eles desconfiam de algum truque meu,
mas fui eu que passei a desconfiar ain-
da mais deles". A resposta do criador da
psicanálise não poderia ser mais dire-
ta: "Meu caro senhor Brecht, infeliz-
mente também nesse caso não posso
auxiliá-lo. Mas, ao que tudo indica, al-
guma intuição íntima já revelou aos
seus colaboradores que essa questão do
engajamento, mesmo num texto ficcio-
nal, é um falso problema. Ao menos esta
é minha opinião. Quanto à frase inde-
sejada, julgo que ela deve surgir como
um sinalizador da insegurança que têm
em relação a si mesmos e à posição que
ocupam na hierarquia social. Contudo
essa hipótese também me parece insa-
tisfatória. De todo modo, dentro de suas
concepções - que aliás não me agra-
dam - e dentro de seus pressupostos, o
mínimo que posso dizer é: continue
lutando por um mundo em que o tea-
tro seja necessário, mas não como pri-
vilégio de uma categoria. E se aqueles
que se julgam artistas demonstrarem
problemas com isso, oscilarem entre a
defesa da própria excepcionalidade e o
abismo da baixa auto-estima, tiverem
surtos, chiliques, etc., deixe estar:
aqueles que não gostam de si mesmos
geralmente têm razão. Mas para não
encerrar com nota soturna, afinal o der-
rotismo é péssimo para o sucesso, vale
lembrar: alguém já disse que vocês,
unidos, podem perder suas correntes e
ganhar o mundo. Em princípio, não
gosto da idéia, mas quem sabe?"

"Feito o
mapeamento da
carnificina
cotidiana,
o que fazer?"

"Pobre é foda:
sempre diz que
não tem nada,
mas numa
enchente diz
que perdeu tudo"
