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Janeiro 2007- número 11

 

NOTAS DA LIÇÃO DE CASA

JOSÉ FERNANDO AZEVEDO

Perguntamo-nos se uma vida, e que tipo de vida, quer (eventualmente) o teatro. E como, se ele lhe faz falta, esta falta pode ser satisfeita. (Denis Guénoun)  

Com exceções, aqueles que fazemos teatro e temos algo próximo dos trinta anos, vivemos um impasse. Ou pelo menos assim poderia ser formulado. Nós salvo exceções não tivemos propriamen te uma "formação política", digamos... no sentido partidário. Não, a cara pintada de alguns foi de fato a fachada de mídia, e o movimento estudantil veio à bancarrota. Começando a fazer teatro nos anos noventa, "geração dos grupos" surgidos a maior parte num momento pós Arte contra Barbárie (depois de 1998), vivemos a exigência de uma militância constante, mas talvez falte a cancha da "luta". Sinal, é verdade, dos tempos, do que tem sido a história desse país. Não vai aqui qualquer intenção de "balanço de geração", mas apenas a tentativa de situar um incômodo. É evidente que o teatro vive hoje um momento privilegiado entre nós; as discussões dão notícia disso, e cada vez mais somos mobilizados pelo debate. O que tem acontecido, creio, é um grande trabalho de formação. Mas, como diriam os militantes à moda antiga: faltam quadros!

O que quero dizer, e estou dançando pra chover no molhado, é que o teatro, no modo mesmo como se inscreve na vida da cidade, impõe exigências de engajamento que, longe de significar uma adesão a modelos mortos, acaba por colocar o artista em luta permanente. E, no interior da luta, está posta a questão: como fazer?

Ora, isso só se aprende fazendo e está evidente a falsa questão. Mas concedam-me o desvio.

O Movimento Arte Contra Barbárie e agora a Redemoinho são, por assim dizer, deslocamentos fundamentais em nossa forma de organização. Deslocam o sentido de nossas práticas, redimensionando as questões mais vivas aparecidas desde nossas formas de produção às tentativas de integração e sobrevivência. Mas são, também, resultados vivos de um encontro que é sinal, digamos, de uma superação: pela primeira vez na história o convívio produtivo entre gerações se dá na afirmação de uma atualidade do teatro entre nós. Uns dirão: "mas desde o TBC é assim". Mas atentemos para as diferenças!

Considerando os artistas em ação, são pelo menos cinqüenta anos de teatro convivendo na cena da cidade, e mesmo do país. Que história é essa que se esboça entre saltos e interrupções os mais violentos? Como tornar consciente esse convívio naquilo que ele resume (a origem da experiência coletiva ainda nos anos 50 com o Arena e a ruptura econômica com o modelo TBC que acaba por impor rupturas estéticas e sociais; a aventura estético-política dos anos 60 vínculos interrompidos; a resistência dos anos 70 vínculos esboçados, os experimentos poéticos; o cooperativismo na contramão dos anos 80)?

Sem brechas para pessedismos fora do tempo, e do lugar, o que vivemos é, sem dúvida, a invenção de um teatro que é novo não porque busque a "novidade" para a cena, mas porque tem se colocado a exigência de inscrever artisticamente as questões de sua história, de sua rela- ção com a vida da cidade explodindo os modelos pré-estabelecidos e assumindo a precariedade de seus meios como pres- suposto para uma superação que é a um só tempo "formal" e social.

E isso, tudo indica, tem se apresentado como afirmação de uma diversidade que se quer não apenas a negação da variedade mercadológica, mas antes, o reconhecimento de que o teatro, que não é política, é sim o momento político por definição, em que a imagem do que nossa sociabilidade poderia ser inscreve-se no coração mesmo daquilo que a cidade é. Quem vai a uma reunião entre grupos e assiste um de seus espetáculos intui o significado disso.

Feito o desvio, tenho mesmo a impressão de que vivemos um momento de reinvenção daquilo que se poderia chamar teatro político... Curiosamente, a afirmação daquilo que está na origem dessa denominação, já no modo como Piscator o definia: a exigência de elaboração de um ponto de vista que se inscreva no interior do próprio teatro. Talvez com a diferença, em tempos pós- dramáticos, de que agora, esse ponto de vista possa ser ele um "ponto de vista teatral". Mas antes que me xinguem, vale dizer, isso no mínimo significa o levantamento de questões que têm determinado a fisionomia própria desse outro engajamento, como, por exemplo:

Que significa fazer teatro no auge da sociedade do espetáculo?

Que significa interrogar-se pela necessidade do teatro, quando essa, menos que uma questão de essência é, mais uma vez, a interrogação sobre sua função nos tempos em que vivemos? Que formas de produção são essas que nos têm mobilizado a imaginação e com isso redefinido os rumos da política cultural?

Que formas de mobilização são essas que, estabelecendo redes, têm permitido imaginar um teatro que é... (como dizer?) nacional e que vai aos poucos, a cada encontro, esboçando a fisionomia de um país que não aparece na televisão, e que desdenha os contornos do mapa, embora ainda se constranja na miséria da sobrevivência? Um país que, se aparece num certo modo de fazer, talvez se possa flagrar num certo modo de ver. Que modos são esses de fazer e ver que aos poucos vão redefinindo o teatro entre nós?

Na luta por formas de continuidade e manutenção, que significa afirmar a necessidade de certa institucionalização do teatro numa sociedade em que a forma por excelência é a da "organização": o crime organizado, ONGs, OSCIPs etc? Que imagem de sociedade é essa que se esboça na contramão daquilo que a sociedade é?

Como nomear a qualidade daquilo que se produz sem levar em consideração as tendências que o determinam?

Talvez, aquela falsa questão nos devolva às questões antigas e fundamentais. De resto, sinaliza o caminho tortuoso daquilo que se poderia perceber como o modo como temos aprendido a fazer política. E com isso, o teatro tem se mostrado cada vez mais necessário: para um tipo de gente que tem aprendido a fazer política fazendo teatro.

"Que história é essa que se esboça entre saltos e interrupções os mais violentos?"