Análise de
Políticas Públicas
Existem, espalhados por todo
país, coletivos de trabalho
continuado que apontam
caminhos para os impasses
que a arte mercadológica e a
mídia nos impõem. Esses
grupos repensam
cotidianamente a sua prática e
não se contentam com
soluções superficiais.
Encarando o teatro como algo
maior e mais importante que
um simples entretenimento, são
eles que garantem, para a arte
teatral, relevância histórica.
Alguns destes grupos,
integrantes do Redemoinho
falaram ao Sarrafo sobre a
política cultural do governo
federal e sobre a política em
seus estados
OS QUATRO ANOS DO GOVERNO LULA
ÓI NÓIS - Acreditamos na obrigação
constitucional do Estado na garantia de
políticas públicas que atendam a um fa-
zer artístico que aponte para a democra-
tização, para o acesso a arte pela maior
parte da população. O primeiro governo
Lula ficou aquém de nossas expectativas.
Não houve alteração significativa nos ru-
mos das políticas públicas na área da cul-
tura. O orçamento da cultura permanece
insignificante. Um governo que abre mão
de 700 milhões para ser gerido pela ini-
ciativa privada (Lei Rouanet) não pode-
ria contingênciar os míseros 0,4% do or-
çamento do Ministério da Cultura, como
aconteceu 2005.
PEQUENO GESTO - Trabalho em tea-
tro há 20 anos e só agora vieram editais
de produção e manutenção de grupos.
Isso é uma diferença monumental. Neste
governo se tornou uma necessidade falar
de fomento à cultura. Antes isso era quase
uma imoralidade - "em um país onde mui-
tos não têm o que comer". Neste gover-
no, pela primeira vez, encontramos eco
na expressão 'política cultural'. E um novo
conceito de arte e cultura se instaurou.
Contra zero em investimento público nes-
tes 20 anos, o governo Lula investiu mais
de 30 milhões apenas em teatro. É pou-
co, mas é muito significativo.
BARRACÃO - A política cultural do go-
verno Lula continuou a mesma coisa na
medida em que a Lei Rouanet continua
sendo a forma através da qual o governo
administra a verba para a cultura. Em ter-
mos de teatro, o que se modifica é uma
abertura maior para o diálogo com o po-
der público. Este é o ponto mais expres-
sivo deste governo. Encontramos, entre
os homens do poder, alguns parceiros na
defesa dos interesses dos grupos que,
como o nosso, estão fora da indústria
cultural. Exigimos uma atuação presente
do governo federal nas decisões relacio-
nadas às políticas públicas e no endere-
çamento de suas verbas.
CIA TEATRO DA CIDADE - A política
teatral melhorou, já que passou a aten-
der os grupos de pesquisas continuada,
mas ainda está aquém das necessidades
dessas companhias. Com certeza, a pro-
dução teatral no interior do Brasil sofre
por esquecimento das autoridades e ór-
gãos culturais, que direcionam suas ações
para os grandes centros.
VILA VELHA - No ano de 2006 alguns
dos grupos residentes foram contemplados
com prêmios como Miryan Muniz e Carava-
na, ambos da FUNARTE. Esses projetos via-
bilizaram a circulação de 2 grupos, uma
montagem e uma manutenção de grupo por
6 meses. A criação da câmera setorial, as
investidas do MINC no sentido de discutir,
ouvir e planejar, de forma mais participati-
va com a classe (Sated, Cooperativa, Nú-
cleos de Produção) colaborou com a arti-
culação dos artistas no estado.
POLÍTICAS CULTURAIS NOS ESTADOS
RIO GRANDE DO SUL - governo Ri-
gotto (PMDB)
Torna-se difícil falar em políticas pú-
blicas na área da cultura e, em especial
para o teatro, já que, a exemplo da fede-
ração e de outros estados, houve uma cla-
ra transferência de responsabilidade do
público para o privado a partir do esta-
belecimento das chamadas Leis de Incen-
tivo; isso porque com o mecanismo de
renúncia fiscal, o Estado abre mão de in-
vestir, por um ato de vontade, na produ-
ção artística. Além disso, o que vem acon-
tecendo é que as verbas de incentivo são
direcionadas na maioria das vezes pelas
empresas de porte às produções teatrais
que têm garantida a sua posição no mer-
cado ou para a promoção de projetos cul-
turais das próprias empresas.
No Rio Grande do Sul, existe o decre-
to nº 41.494, de 19 de março de 2002,
que disciplina o Prêmio Anual de Incen-
tivo às Artes Cênicas, da Secretaria de
Estado da Cultura, destinado ao fomen-
to da produção de teatro e dança. O úl-
timo valor foi fixado em R$ 250.000,00,
só que nos quatro anos do atual gover-
no não foi distribuído. No mês que an-
tecedeu a eleição foi lançado, a toque-
de-caixa, o edital de 2006, mas para ser
pago pelo próximo governo. Também foi
promulgada e sancionada em 18 de de-
zembro de 2001 a Lei nº 11.706 que cria
o Fundo Estadual de Cultura. Na justifi-
cativa do Projeto de Lei lê-se "Inúmeros
projetos de real interesse cultural para
a comunidade, quer por seu conteúdo
ou por sua linguagem inovadora, pagam
um duro preço pelas audácias criativas:
o anonimato. Cabe ao Estado, portanto,
criar condições de não somente estimu-
lar a emergência de novos sujeitos cul-
turais como também trazer à luz proje-
tos inovadores e instigadores de talen-
tos. O Fundo de Apoio à Cultura do Es-
tado do Rio Grande do Sul - FAC-RS, por
suas características, apoiará projetos de
real valor para a comunidade, mesmo os
de difícil trânsito no marketing cultu-
ral." É interessante observar que, ape-
sar do arrazoado que indica que os le-
gisladores têm plena consciência da ne-
cessidade do Estado como fomentador da
cultura, até hoje, o referido Fundo não
foi implantado. (Oi Nóis)
BAHIA - governo Paulo Souto (PFL)
Este ano, houve a criação do Fundo Es-
tadual de Cultura, que abriu novas possibi-
lidades, ainda que sua estrutura de avalia-
ção dos projetos fosse, na opinião de mui-
tos, precária. Houve, ainda, a aprovação da
lei Municipal de Incentivo Fiscal, com isen-
ção de IPTU e ISS, que abriu novas frentes
de captação, ainda que o recurso total captado por este mecanismo tenha sido prati-
camente insignificante. (Vila Velha).

RIO DE JANEIRO - governo Rosinha
(PSB)
Não há política cultural no Estado do
Rio há muito tempo. Eu diria que não se
discute cultura há pelo menos 12 anos.
Mas nos últimos 8 anos foi uma vergo-
nha. Garotinho e Rosinha sequer com-
preendem o que significa investimento
cultural. O Governo Rosinha, em uma reu-
nião com entidades de teatro do Rio, che-
gou a confundir verba destinada à renún-
cia fiscal com orçamento da cultura. Sem
contar com a concorrência que o próprio
Estado fazia com os produtores captando
para a realização de projetos próprios. A
política cultural do RJ é uma vergonha
há muitos anos. Ela não apenas inexiste,
mas finge que existe de forma inescru-
pulosa. Para não ser injusto, Garotinho
lançou em 2001 um edital de produção
que se chamou ProCena. Entretanto, a
confusão com relação à liberação das ver-
bas para as produções demonstrou que
não havia qualquer sombra de seriedade
no projeto. (Pequeno Gesto)
SÃO PAULO - Governo Alckmin e Lembo (PSDB)
O PAC foi a coisa mais expressiva que
o governo foi capaz de fazer, mas a luta
pelo Fundo Estadual de Cultura morreu
na praia. (Barracão)
A política teatral ainda é realizada
de forma precária e com poucos inves-
timentos. A maioria dos projetos aten-
de grupos "amadores" do interior ou
grupos "profissionais" da Capital. Ain-
da não há investimento e incentivo para
as companhias de pesquisas continua-
da e com espaço próprio. Além disto, a
lei de incentivo estadual está desativa-
da. É necessário um olhar para a pro-
dução teatral no interior de São Paulo.
(Cia Teatro da Cidade)
TEATRO VILA VELHA (Salvador-BA)
Somos um teatro que abriga seis grupos
artísticos residentes. É uma relação de
simbiose: os grupos são o teatro, e o
Teatro é a junção desses grupos. Os
grupos residentes são: Bando de Teatro
Olodum, Cia. Teatro dos Novos, Cia. Novos
Novos, A Outra Cia. de Teatro, Vilavox e
Viladança. Cada grupo se organiza de
forma própria, entretanto, se assemelham
em muitos pontos. De maneira geral, o
diretor artístico de cada grupo funciona
também como um coordenador. Tentamos
dividir o trabalho de forma equilibrada entre os componentes do grupo, quase sempre nos
dividindo em frentes de trabalho. O Vila é um Teatro marcado pelo vanguardismo, pela ousadia,
pelo teatro de grupo, por sua orientação libertária. Às vezes conseguimos alcançar este teatro de
forma mais contundente, mas também resvalamos, muitas vezes involuntarimente, no equilíbrio
triangular entre o mercado, a vanguarda e a tradição.
TEATRO DO PEQUENO GESTO (Rio de Janeiro-RJ)
Passamos, no momento, por uma fase de
reestruturação. De 91 até hoje trabalhamos como uma companhia livre, ou seja, com as decisões
centralizadas no diretor. Não tínhamos o compromisso de encenar o espetáculo com todos os atores.
Eles eram convidados para integrar um espetáculo, mas se o ator tivesse algum compromisso, poderia
não aceitar. Este sistema de cia livre, associado ao fato de não trabalharmos sempre com
financiamento, levou os atores a procurarem seu sustento fora da cia. Daí a reestruturação.
Pretendemos deixar de ser uma cia livre procurando descentralizar um pouco as decisões e, ao mesmo
tempo, atraindo os atores para o trabalho na produção, antes também concentrado num núcleo
formado pelo diretor (Antonio Guedes) e pela dramaturgista (Fátima Saadi).
ENSAIO ABERTO (Rio de Janeiro-RJ)
Acreditamos que o trabalho com o público criou um
diferencial importante para o nosso trabalho. Para nós foi importante ter clareza ao escolhermos
o nosso público. Ou seja, responder quem era o nosso público, e como chegar a ele, determinou
nosso caminho. Trabalhamos junto ao movimento social organizado. Criamos a Ciência do Novo
Público-CNP e através dela conseguimos alcançar um público de massa. Por exemplo a Missa dos
Quilombos já foi assistida por mais de 60 mil espectadores, dentre esse número cerca de 70% é
trabalho direto da CNP
CIA TEATRO DA CIDADE (São José dos Campos-SP)
Temos um núcleo fixo de quatro
integrantes efetivos, que estão juntos desde a criação do grupo há 16 anos. Com muita
dificuldade mantemos o nosso espaço com o desenvolvimento de pesquisas e realizando cursos,
workshops e projetos com órgãos públicos. Lutamos por uma política ampla que, de alguma
forma, privilegie a produção em cidades distantes dos grandes centros.
BARRACÃO (Barão Geraldo-SP)
Somos um espaço físico e um grupo de pesquisa que têm como
base de investigação a máscara teatral, a commedia dell'arte, o palhaço e o ator como veículo da
expressão teatral. Como grupo de pesquisa e criação, não temos um núcleo fixo que trabalhe
sempre com a mesma formação, mas trabalhamos juntos em diversos projetos. A equipe de
artistas pesquisadores hoje é composta por 06 atores e uma diretora. Defendemos que somente
através de políticas públicas de fomento à pesquisa, criação e circulação de grupos e produções,
poderemos manter um trabalho continuado.
ÓI NÓIS AQUI TRAVEIS (Porto Alegre-RS)
Nos organizamos de forma coletiva e autogestionária. Todos
têm um envolvimento profundo com o processo criativo e com a produção dos espetáculos e projetos. A
importância da ética no exercício do trabalho do ator e a sua função social conduz o grupo a uma busca
constante pela construção de um teatro crítico. Dividimos, da forma mais abrangente possível, o trabalho
construído por esse coletivo cênico com a comunidade na qual estamos inserido. Pois acreditamos que o
Teatro de Rua traz, intrínseco na sua manifestação, valores significativos que expressam o combate à
alienação e exclusão cultural, exercendo um papel fundamental na democratização da arte.
